jueves, 27 de agosto de 2009

Este poema era meu. Agora não é mais. 7


eu sou o acrobata do banco da frente
numa diagonal à esquerda, com
você. as duas mãos no volante até rachar
o ponteiro do medidor de velocidade. mas
não controlo nada. você me vê? seus braços
com medo de abismo e fúria, espasmo e
vômito. preciso chegar a algum lugar, você
repete. você contorce a língua, gagueja
e repete: preciso chegar a algum lugar. diz
que vai abrir os vidros para oxigenar o
mundo. diz que isto é o céu, uma ou duas
esperanças. mas isto pode nos matar rápido
demais. ninguém nos contou nada, nem
avisou sobre isso, porque ninguém sabe
sobre isso. consegue ver os meus olhos
alegres, pelo retrovisor? eu vejo bem os
seus, arregalados. suas mãos fincadas no
estofamento novo e a caixa de fósforos
vazia. este minuto final do espetáculo
acaba aqui. o abismo abre vento, sombra
e fila de caixa eletrônico. continuamos muito
separados, mas estamos perto. eu sou o
acrobata do banco da frente numa diagonal
à esquerda, sem você. posso até errar sua
vida na curva. mas não controlo nada


(Manoel Ricardo de Lima)


Manoel Ricardo de Lima esticou a idéia da acrobacia. Contorceu, dobrou, levou a seu extremo. Esta é uma versão viceral, tensa, um golpe. Uma outra coisa, um outro poema. Apareceu como uma surpresa, como se avisassem que você havia ganhado uma passagem para um lugar que sempre quis. Este poema não é meu. Nunca foi. Este poema é o que eu queria ter escrito.